• Gabriella Albuquerque

Escapando da minha própria palavra

Um caderno cor de rosa com capa de plumas, parecendo um bicho de pelúcia - meu primeiro diário. Devia ter uns 11 ou 12 anos e implorei aos meus pais para me darem de presente porque, claro, eu queria aquele diário e não outro qualquer e o tal era bem caro para nossos parâmetros da época. Ganhei no dia das crianças e escrevi nele meses a fio, ainda está inteiro e guardado na casa da minha mãe. Em seguida, vieram as agendas, os cadernos aleatórios e, anos depois, um computador.


Escolhi o jornalismo, quando eu tinha 14 anos, por gostar de escrever e de revistas (e de falar, há boatos). Fiz a faculdade escrevendo em um blog meu e o mantive de pé até meados de 2012. Escrevi a trabalho, formalmente, por volta de 5 anos. Escrevi para mim, nas minhas próprias redes e sites, quando tive negócios de outros setores, por quase 10 anos. Escrevi para mim, em páginas de word e cadernos, apenas porque sim, por quase 15 anos. Escrevi e escrevo cartas para minha mãe, meu pai, minha irmã, meu marido (e quando era namorado também), amigas. Escrevi e escrevo cartões de Natal. Escrevo no bloco de notas do celular e no caderno que uso após a meditação.


E mesmo assim, eu nunca usei o título de escritora. Nem sequer sonhei que seria escritora. Jornalista, sim. Escritora, não. Pior, nem que eu teria qualquer capacidade para isso. Quando cogitei, pela primeira vez, abrir este site que você me lê, achei que estava maluca e ousada demais, mesmo sendo jornalista. Apenas dois anos depois fiz ele acontecer, em 2021, e depois disso levei mais um ano, agora, para publicar com o coração confiante.


A primeira vez que contei essa minha linha do tempo foi em um curso da escritora Aline Bei, em janeiro, produzido pela querida Paula, editora e criadora do Chicas, e aí quando terminei, a própria Aline me falou: então, você é escritora. Foi assim que a palavra me encontrou. Desde este dia, todos os outros são de autolembretes: você já é. Cheguei em outros cursos, escrevi um ensaio e um tanto de outras coisas, finalmente tirei a newsletter do papel e recomecei a Tempo. Renasci.


Eu, uma mulher desconstruída, criada com liberdade e coragem, não percebi que estava deixando de lado minha palavra por medo de me dizer quem sou.


Uma palavrinha perdida. Uma palavrinha que você não assume. Uma vontade. Um desejo. Um sonho. Tudo guardado num baú de impossibilidades. Esperando e esperando. Você ardendo em chamas sem saber porquê. Um desgosto com a vida. Comendo sem sentir prazer. E a palavrinha lá querendo te ocupar. Uma confusão danada por dentro. Até ela te alcançar.


Uma palavrinha e uma vida toda para recomeçar.



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