• Gabriella Albuquerque

Tamanho não é documento

Corpos magros não são atestados de beleza e felicidade


"Feche os olhos e se imagine aos 80 anos. Pense no que te importa aos 80 anos. E viva como se faltasse realmente um dia para chegar aos 80 anos. Com o que você verdadeiramente iria se preocupar?". Este exercício é proposto pela nutricionista, aprimorada em transtorno alimentar, Roberta Carbonari, em um dos seus posts no Instagram. E porque ela, assim como outros profissionais de saúde comprometidos com o bem estar, sugeriu essa reflexão? Porque estamos em meio a um bombardeio de conteúdos que atingem o modo como você enxerga seu corpo e faz com que a importância do tamanho da calça seja infinitamente maior do que a vida real.


Segundo os dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica, em média 217 mil brasileiros se submetem à lipoaspiração a cada 365 dias, o que significa aproximadamente 590 procedimentos a cada 24 horas. E em um ano em que as redes sociais ainda não tinham a força de hoje, 2013, um terço das meninas que estavam no 9º ano do Ensino Fundamental já se preocupavam com o peso, segundo dados do IBGE. O que estes números dizem? Que no padrão atual não cabe diversidade. O mais preocupante é que os jovens estão aprendendo muito cedo a buscar se enquadrar nessas características padronizadas - para não dizer impossíveis ou irreais.


Doenças relacionadas a peso devem ser reconhecidas, claro. Afinal, nesse caso se trata de questões de saúde, nada tendo a ver com padrões estéticos. A obesidade está na lista da prioridade na vacina contra o covid, devido ao risco de vida do paciente, mas vale lembrar que exige diagnóstico médico, ou seja, não dá para o leigo afirmar se alguém é ou não obeso apenas no olhar.

A pergunta que não quer calar é: quando as pessoas decidiram que ser magro é sinônimo de beleza e felicidade?

Antes de mais nada, é preciso esclarecer que há uma diferença entre beleza e tendência. Beleza é tudo aquilo que oferece uma experiência perceptual de prazer ou satisfação e também é uma construção social e filosófica, afinal cada um vai definir o que é belo para seus olhos. Já tendência é tudo que marca um período de tempo ou uma geração, que consideram determinado valor de beleza e estilo; portanto é variável e cíclica.


Dito isto, os primeiros sinais do que o ser humano entende como beleza está na arte. As esculturas e pinturas demonstram a admiração por determinados corpos, objetos e paisagens. Levando em conta esta percepção, o corpo magro não era nada elegante há cerca de 22 mil anos. As deusas eram musas e tinham seios, barriga e quadril volumosos; inclusive eram sinais de fertilidade. Os homens também eram idealizados numa imagem musculosa reforçando a prática de esportes e virilidade. Neste caso, o conceito não variou muito na história.

Enquanto a sociedade viveu em tempos de comida escassa, ter acesso a mesa farta e se alimentar muito bem era um privilégio. Um corpo voluptuoso era sinal de riqueza, fartura e prosperidade e as tendências de beleza andam de mãos dadas com o luxo. Foi só na Idade Média que o grupo masculino teve mais espaço, avaliando o ponto de tendência estética, para abrir mão do corpo másculo.


A partir do momento em que conseguimos ter uma agricultura estável, produção industrial e mais pessoas com acesso à comida facilmente, exceto claro quem está (estava) em países em desenvolvimento ou não desenvolvidos, o padrão muda. O luxo é sobre o inacessível; e como a tendência de beleza o acompanha, o que se torna diferente? Conseguir passar horas sem comer ou fazer dieta?! Então, antes mesmo da Revolução Industrial, se dá início à tendência: quanto menor for seu peso, mais bonito será.


As mudanças

Uma cultura não se forma do dia para a noite, então desde aquela época muitos conceitos foram mudando. Você pode observar as mudanças mais recentes analisando filmes, propagandas e revistas do século 20 ao 21. Um exemplo é Marilyn Monroe, atriz de inúmeros filmes de sucesso. Ela tinha coxas grossas e quadril mais largo que o padrão americano, e foi uma musa nos anos 50. Inclusive a moda da época no vestuário era o que marcava a cintura e aumentava o quadril. Nos últimos anos, os nomes mais citados do cinema são Jennifer Aniston, Angelina Jolie, Amy Adams e por aí vai. Todas magérrimas. Mas, não podemos não falar das flores…


Há algumas quebras recentes no padrão. Atrizes de origem latina, com corpos mais voluptuosos, estão ganhando espaço como Sofia Vergara. Assim como americanas, italianas, espanholas e muitas outras. O mercado de moda também está entrando neste movimento. Capas de revistas e editoriais estão diversificando padrões, não só com tamanho, mas também com raça, cabelos, formatos de narizes, bocas e afins. Algumas marcas perceberam que não ter representatividade no século 21 é sinônimo de perder uma boa fatia de consumidores.

A Fenty, marca de cosméticos e vestuário, criada por Rihanna, a cantora, realizou um desfile, em 2019, com modelos fora dos padrões.


Apesar disso, a estética midiática mais aplaudida ainda é um padrão magro. Não só no cinema. Desde aproximadamente 2010, o mundo convive com a ascensão das mídias sociais e com o poder de influência destes ambientes de um alcance incalculável. Dentro das plataformas, desde pessoas comuns até celebridades começaram a compartilhar suas rotinas, suas comidas, seus treinos. E isso foi criando um nicho chamado: influência de bem estar, no qual entraram também alguns profissionais de saúde. No fim, desemboca em estética.


Para regular as práticas e exposições, o Conselho Federal de Medicina, aconselha o cultivo de uma boa relação médico-paciente e respeito aos limites da propaganda e da publicidade médica. Inclui-se aqui a não recomendação de postagem de imagens com "antes e depois" dos pacientes. Mas o mais desafiador é que quem está dominando este mercado não são os profissionais de saúde. No Brasil, antes da pandemia do covid 19, já havia quase 1 milhão de influenciadores profissionais e 76% dos consumidores já compraram algum produto ou serviço por recomendação de um deles, segundo o Youpix. Com este número de influencers e um único órgão regulador, o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), a quantidade de informações falsas e de vendas indevidas sem a devida penalização é enorme.


"Ainda assim, eu me ergo"

Essa frase é da escritora Maya Angelou e saiu de um poema sobre escravidão, sua negritude e a esperança. O texto traz palavras sobre cor e gênero, mas a base é a liberdade. Avalie quantas horas do dia você usa pensando no seu tamanho? Não seria isso se escravizar?


"Hoje é segunda, não posso comer bolo". "Preciso comprar minha proteína em pó porque preciso ter um corpo sem gordura". "Não posso faltar no treino mesmo sentindo cólicas ou outras dores". "Olha essa barriga, preciso começar uma dieta". "Será que este prato tem muito carboidrato?". "Preciso comer menos para poder comprar a roupa da festa x". "Hoje é diaaaa de gordice, dia do lixoooo"....

Não é só sobre o tamanho em si, no corpo físico, é um impacto direto no estilo de vida, na saúde mental e na autoestima.

Afinal, a narrativa de cada vida humana será sobre a própria circunferência ou sobre as histórias que viveu? Será que aos 80 anos você vai pensar no dia que não comeu uma fatia de bolo de chocolate e apaziguou sua vontade ou no dia que você e as pessoas que ama estavam felizes e vibrantes comendo uma boa sobremesa e contando histórias de vida?


Sabemos que no momento que o bolo chega a você, poderá haver olhares julgadores. Assim como validamos a dificuldade de ir comprar uma roupa e não caber nas que você gostou, de se olhar no espelho e não conseguir enxergar a beleza que todos dizem ter, de abrir o Instagram e não se deixar levar. Mas, "assim como as esperanças brotam, ainda assim me ergo" (Maya Angelou) porque tamanho não é medida de beleza.



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