• Bruna Tavares

Sê tu uma benção

Tudo é para ontem; e o hoje, por mais que seja o (e um) presente, é tratado como se nunca fosse chegar.




Nos anos 80, ao compor a música O Tempo Não Para, Cazuza já dava sinais de sua transgressão frente àquele tempo. Num período marcado pela efervescência cultural e descobertas de gostos, estilos, sexualidade, e gosto por si mesmo, não havia tempo para pensar na...falta de tempo. Era o momento ideal para viver tudo o que sempre se quis! Simples assim!


Mas nem tudo são flores e Cazuza estava lá nesse momento para mostrar o outro lado da moeda. Mostrar que toda revolução é seguida de opressão. Por isso as tantas críticas nessa composição e a certeza desde então que o tempo não para. Não para não. Não para.


Por sua vez, Gonzaguinha, na década anterior, trouxe o que há pouco mais de 1 ano estamos (ainda) mais desacostumados a lembrar que existe: a esperança! O Que É O Que É traz de forma lúdica as dores e os prazeres da vida, reforçando o aprendizado de que ela vale a pena ser vivida.


Nos dias atuais, apesar de serem também revolucionários, deu-se mais lugar ao ódio do que a qualquer outra coisa. E não apenas a outrem, mas a si próprio. Uma eterna intolerância seguida de um desejo (totalmente equivocado) de ser um outro alguém. Esqueceu-se de quem se é.


São tantos os dribles inconscientes para evitar olhar para si que não se percebe que inúmeros compromissos de uma rotina abarrotada trazendo, na realidade, um enorme vazio, são uma fuga da simplicidade da vida. Tudo é para ontem; e o hoje, por mais que seja o (e um) presente, é tratado como se nunca fosse chegar. E para se considerar uma vitória, em meio a esse turbilhão de manifestos internos, ainda é esperado que algum evento mais extraordinário seja uma produção hollywoodiana. Se não for, ignora-se o sucesso. Mas a que horas será possível organizar esse espetáculo? Ou a vida dá de brinde?


Nesse sentido, a genial Suzana Vidigal, jornalista e cinéfila, falou o seguinte sobre o filme Soul (inclusive, se você ainda não assistiu, tá esperando o que?! É IN-CRÍ-VEL!) “Em tempos de valorização extrema das performances, das aparências e dos rótulos, saber simplesmente viver pode ser o grande alimento da alma.”.


O que se deseja é mesmo atender as urgências e emergências do outro e as nossas quando já a caminho do hospital?


E para alcançar um sentido nessa coisa tida como banal chamada vida, Simplesmente viva de acordo com o seu modo de viver. O que os outros pensam é problema deles.” (invocando mais um gênio da música, Bob Marley)

E assim atingimos o clímax dessa matéria: Você! O uso do Tempo Para Você do Seu Jeito!


Dito isso, experimente começar a se olhar no espelho. De verdade. Com mais calma. Veja seus atributos e defeitos. Reconheça-os, avalie-os. Provoque reflexões para começar a se enxergar de uma forma diferente. Mais respeitosa, amorosa e autocompassiva.


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Nazaré Tedesco feelings à parte (entendedores entenderão! Alô, Senhora do Destino!), espere se encontrar nesse espelho, e não aquela pessoa que você considera o auge da beleza. Vocês são tão diferentes… e só você sabe como é ser você e só ela sabe como é ser ela. O que é visto de fora nem sempre reflete o que é sentido de dentro.


Se descubra! Encontre algo que te inspira, te toca, te faz sorrir, se arrepiar.


Fica a provocação de Viviane Albertine do The Slits:

Então de repente me ocorreu que eu não precisava ter um herói; eu poderia pegar uma guitarra e apenas tocar. Não foi tanto por que eu comecei a tocar, mas porque eu não toquei antes.

Sê o heroi da tua própria vida

Uma reportagem recente da CNN Nosso Mundo, com a pauta “Como administrar o tempo e ter qualidade de vida”, foi introduzida pela entrevistadora Luciana Barretto com ponderações fundamentais para esses tempos cortantes. Disse: “Tempo é dinheiro.” Será? No mundo pautado pela produtividade a frase parece ser um encaixe perfeito. Mas no planeta regido pela pandemia tempo se tornou algo muito mais valioso. De 5.000 brasileiros questionados sobre a distância e produtividade no trabalho remoto, 8 em cada 10 disseram ter mantido ou melhorado a performance. E 7 a cada 10 afirmaram terem melhorado a percepção sobre bem estar. Flexibilidade de horário, mais tempo para família, não precisar se deslocar até o trabalho e diminuição das despesas. Pelo jeito o tempo ainda segue como senhor da razão.”


O convidado, Christian Barbosa, especialista em produtividade, trouxe algumas importantes lições para acrescentar, parafraseadas adiante:

  • Gerenciar o tempo é algo primordial para se ter mais qualidade de vida e, consequentemente, bem estar. O fazer as coisas na última hora é uma prática hereditária do povo brasileiro, mas não é adequado.

  • Os hobbies hoje são tão importantes quanto a própria produtividade para obtenção da sensação de equilíbrio e performance na vida. Sair um pouco do estado emocional, que tira do padrão produtividade, e ter um pensamento mais crítico sobre o que está fazendo. Ter presença no que se faz ao invés de fazer tudo de forma automatizada.

  • Atualmente, muitas pessoas estão com medo de serem demitidas. Partindo desse exemplo, Christian nos leva a fazer a seguinte reflexão: o que eu tenho de habilidade que me dá um diferencial dentre outros profissionais? o que preciso aprender? Trace uma estratégia para sua rotina, para que você aprenda e se desenvolva sempre, atingindo seus objetivos.


É duro pensar, também, que estamos vivendo com tanta escassez de tudo e mau aproveitamento do tempo, que experienciar um dos sentimentos mais belos da vida - o amor - não dá mais para ser aquele espetáculo digno de Romeu e Julieta. Seu Jorge traz um exemplo disso numa versão ao vivo de sua música intitulada Pretinha (São Gonça) em São Paulo. Por mais que esteja fazendo tudo para mostrar o seu amor à sua amada pretinha, “morando em São Paulo você sabe como é. Hoje a marginal engarrafou e eu fiquei a pé. Tentei ligar pra você (mas) o orelhão da minha rua estava escangalhado. O meu cartão tava zerado, mas você crê se quiser.” Em troca de gastar um dinheiro que não temos, para fazer coisas que não queremos, para agradar pessoas de quem não gostamos.


Mas, ainda assim, é possível pausar. Pode parecer grosseiro, mas é preciso reforçar que é fácil olhar 1mm à frente para enxergar o vasto mundo que habitamos, e que o caos faz parte de tudo isso, porém é de responsabilidade de cada um identificar que somente a si cabe respirar e perceber que o mundo é muito mais do que a profissão escolhida, do que o trânsito das ruas, do que a impaciência alheia.


Na verdade, tem sido difícil lidar com tanto cansaço e ainda pensar em novos cenários. Ora, para ter resultados diferentes é preciso agir como nunca antes. Se quisermos ver uma diferença real no nosso cotidiano, é preciso começarmos pelo básico. Reforçamos: comece por você!


Não foi à toa que essa matéria foi escrita em meio a tantas referências culturais e de pequenas ações do dia a dia, que são um alento em contraposição da pressa. Ouça uma música, assista a um filme, uma série, leia um livro, um texto de quem te inspira, um artigo, estude algo que gosta ou que quer aprender, dance, cante, pinte, borde, cozinhe, faça um café numa bela xícara. Naquela que fica guardada no buffet cujas portas você não abre faz tempo porque guarda toda a louça especial separada apenas para visitas. Lembre-se: você é a pessoa mais importante da sua vida!


Tentar agradar aos outros não significa que você vai obrigatoriamente receber o retorno esperado. Então, satisfaça a si próprio, crie momentos prazerosos com você mesmo, com as pessoas com quem você mora. Só assim você consegue dar um up no seu bem estar e de quebra melhorar sua relação com o próximo.


Mais do que empatia, é preciso autoempatia.

Sê tu a tua benção!

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