• Gabriella Albuquerque

Quem cuida de quem?

Atualizado: 19 de jan.



"A sua fraqueza se transforma na sua força", Domenico De Masi. O autor e sociólogo italiano se refere ao ser humano e a incoerência da existência frágil e forte ao mesmo tempo. Sem um adulto cuidando, não sobreviveriam muito tempo após o nascimento. Essa característica parecia uma desvantagem nos primórdios, mas… "Somos os únicos animais que recebem saber cultural", continua Domenico, e graças a isso a humanidade conseguiu viver em evolução.


Viver em bandos, lá no começo, protegia e aumentava a potencialidade. E assim foi e é até hoje, ainda que sem as tribos de outrora na maior parte do mundo. Não é à toa que o seu celular está cheio de aplicativos sociais e um deles, o Whatsapp, ainda possibilita a existência de vários grupos ao mesmo tempo.


Segundo o estudo mais longo sobre felicidade, com duração de 20 anos, da Universidade Harvard, o que faz o ser humano mais feliz mesmo é ter laços afetivos. E não tem relação alguma com a quantidade, desde que seja uma conexão profunda. Quem tem ao menos uma pessoa para partilhar a vida, histórias e tristezas, vive mais feliz.

Desses laços de afeto, surge o que podemos chamar de rede de apoio. Um sistema com elos invisíveis que promove suporte emocional, social e operacional para os indivíduos. Além de aumentar a felicidade, esse "ter com quem contar" funciona como máquina propulsora.


É o caso desta revista, por exemplo, com duas mulheres partilhando a produção.


Rede de apoio profissional

A belga An VerhuAn Verhulst-Santos, primeira mulher CEO da L'oreal Brasil, está indo embora do país para assumir a presidência da marca no Canadá. Mas, não deixa o Brasil sem um legado. Hoje, 53% da liderança da empresa é de mulheres, atingindo, portanto, a equidade de gênero.


Ter alguém para compartilhar os sonhos é importante para os momentos inseguros.

"Não somos sozinhas, somos conectadas. Então sempre é possível pedir ajuda.", disse An em entrevista para o Portal UOL.

O autor Napoleon Hill, conhecido pelos títulos sobre negócios, traz em suas publicações referências sobre o que chama de master mind. Segundo ele, Ford e outros grandes nomes da economia, se tornaram mais prósperos por serem um grupo de apoio. Ouviam as ideias uns dos outros, ofertavam conselhos, às vezes, até emprestavam dinheiro. Além dos amigos, Napoleon ressaltava o valor dessa troca nas relações conjugais. O que se revela no livro A lei do triunfo é que sem a esposa criativa, Ford não seria Ford.


O ex-presidente americano, Barack Obama, concorda. "Eu não estaria aqui esta noite sem o apoio incondicional da minha melhor amiga nos últimos 16 anos, o pilar da nossa familia, o amor da minha vida, a próxima primeira dama dos Estados Unidos, Michelle Obama", disse em seu discurso de posse. O que nos leva ao próximo tópico, a rede de apoio das pessoas que saem para o mundo. De An a Obama, quem cuidou da família deles?


Parentalidade

"Já li muitos livros escritos por e sobre mulheres que trabalham e fico chocada com o fato de ninguém jamais parecer querer falar sobre ter ajuda em casa", Shonda Rhimes, roteirista da aclamada série Grey's Anatomy, no livro O ano em que eu disse sim. Quando sua primeira filha chegou, após uma adoção individual, Shonda tinha certeza que conseguiria ser mãe, cuidar da casa e comida, da própria carreira e o que mais viesse. Sozinha.


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Se deu conta de que não era bem assim quando cochilou tomando banho. "Preciso de ajuda. Ou vou perder o emprego, e a criança e eu vamos morrer de fome.", pensou. Contratou a rede, serviço muitas vezes necessário para as mulheres dos nossos tempos. O sonho de ter uma carreira bem sucedida se tornou mais palpável, apesar de desafiador, e, claro, elas ganharam o mundo. Só faltou o resto da sociedade fazer sua parte e ofertar licença paternidade, além de respeitar e incentivar o pedido de ajuda.


No Brasil, a família ainda é um ambiente de laços apertados. Quando uma brasileira tem bebê, em tempos não pandêmicos pelo menos, sempre tem uma mãe ou tia ou avó da mãe de prontidão e, se morar longe, de malas feitas. Esse movimento natural é a garantia da continuação da carreira das mães. "Dependendo do período do ano fico totalmente ausente das necessidades do meu filho, isso machuca. Porém, tenho uma rede de apoio familiar muito forte e somos bem resilientes, entendemos que são fases.", conta Walquiria Ferreira, diretora de operações, sócia de um brechó e mãe solo.


Na rotina intensa e carregada de culpas, a rede funciona também como um carinho. "O apoio vem com os cuidados com meu pequeno, vem muitas vezes em forma de comida, como um pão quentinho. E às vezes vem com uma simples pergunta se está tudo bem", relata Simone Medeiros, mãe, jornalista atuante e empreendedora em um negócio familiar.


Como toda relação intensa e misturada também pode sair ranhuras. "No início não foi fácil. A minha própria família cobrava uma postura da minha maternidade, daquela que abre mão de tudo pela criação do filho. Hoje é mais fácil a compreensão." relembra Walquiria.


Uma conversa clássica a se testemunhar nessas trocas é o conflito de gerações. A nova mãe descobriu técnicas que a geração anterior acha um absurdo. E isso pode gerar um nó. Mas, nada que uma boa conversa e limites não resolvam. Se não funcionar, não é rede de apoio.


A vulnerabilidade de pedir ajuda

"A maioria de nós sabe muito bem prestar ajuda, mas quando se trata de vulnerabilidade é preciso saber pedir ajuda", Brené Brown. Não é uma tarefa fácil, afinal para isso é preciso reconhecer que precisa e expor sentimentos. "Sou uma pessoa muito fechada em relação às emoções, porque em casa nunca tivemos uma cultura de conversar, então hoje, mesmo já fazendo diferente com meu filho, eu ainda reluto muito para me abrir.", relata Ana Lu Fragoso, jornalista, blogueira e mãe.


Os adultos de hoje não tiveram acesso a aprendizados sobre emoções. "Às vezes tenho a impressão que posso incomodar ou preocupar as pessoas e isso não me deixa à vontade. Vejo todo mundo correndo tanto que fico me questionando. Será que eu realmente estou tendo problemas?", conta Simone. Apesar do medo de incomodar, a troca de vulnerabilidades é positiva para ambas as partes se houver uma conexão, daquelas que traz felicidade.

Assim, uma mão leva a outra.

"Pai, como você consegue?"

Os homens aparecem pouco nas estatísticas sobre ajuda. Parte pelo que já trouxemos na matéria do mês de abril, eles não costumam assumir precisar de ajuda e outra parte é por eles serem os cuidados. É esperado que uma mulher faça comida, arrume a casa ou mesmo que coordene funcionárias para este fim, além de trabalhar e, se escolher assim, maternar. Mas, os homens… Você já testemunhou um pai, não viúvo, ser questionado sobre como ele consegue trabalhar e cuidar dos filhos?


De tanto ouvir esses questionamentos e notar que eram direcionados apenas a ela e não ao pai do filho, a consultora de estilo Thaís Farage decidiu fazer um movimento. Em agosto de 2018, entrevistou um pai por dia no seu instagram para que eles contassem como conciliavam paternidade e carreira. Nenhum deles tinha pensado nisso até aquele dia.

Quando a rede de apoio não é construída por todos, a conta fecha no negativo. Mulheres exaustas, homens secretamente sofridos, relacionamentos exauridos, indivíduos frustrados e crianças sentindo os vazios de todos estes seres somados. "A inércia nos esmaga", escreveu o filósofo e autor Fiodor Dostoievski. Que comece o movimento.


A insustentável leveza de ser

"Você precisa de rede de apoio de todos os lados para não cair num buraco e se perder de si mesma. Seja com amigos para você poder conversar, seja com a família para rotina de dia a dia de educação e cuidados, seja para um final de semana que você possa descansar mais um pouquinho e ter um amigo que olhe sua criança por algumas horinhas. Faz muita diferença.", finaliza Walquiria.


Ao que parece, enquanto humanidade, contar uns com os outros pode ser a forma mais sustentável de ser quem se é.


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