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O tempo de ser feliz

Por Sheila Barbosa



"Compositor de destinos

Tambor de todos os ritmos

Tempo, tempo, tempo, tempo", disse Caetano Veloso ao compor Oração ao Tempo.


Sobre a mesma temática da temporalidade, escreveu o saudoso Renato Russo:

"Todos os dias quando acordo

Não tenho mais o tempo que passou

Mas tenho muito tempo

Temos todo tempo do mundo".


Tais músicas podem ser avaliadas sob muitas perspectivas, mas uma delas consiste em um denominador comum, qual seja: o inevitável transcorrer dos dias e a condição efêmera da vida, assim como o fato de que é o tempo fator determinante para dar ritmo às coisas, de modo a fechar feridas.


Tão certo quanto o passar dos dias, é o fato de que eles jamais retornarão.


Viver uma vida sem ter prazer é desperdiçar tempo, esse desperdício jamais poderá ser compensado, pois nunca será possível viver dois dias em um. O que passou, se foi. Não se acumula crédito dele para as 24 horas seguintes.


Trabalhar muito em um período para se divertir em outro é uma das maiores ilusões que o ser humano pode ter, pois a felicidade da vida não é encontrar o pote de ouro no fim do arco-íris, vez que, sendo o fim, já não há mais onde ir com todo o ouro.


A maior parte da satisfação está no percorrer o arco-íris.

Achar o pote é só o trunfo final. A validação de que o trajeto valeu a pena.


Viver é um verbo que só pode ser conjugado no tempo presente. Qualquer tentativa de conjuga-lo no passado ou no futuro será uma maneira de desperdiça-lo, pois só o aqui e o agora podem ser fruídos com plenitude.


O instante que se passa é um convite à luta insana de se viver intensamente.

Por certo, há momentos em que se recolher é inevitável e irremediavelmente necessário. Trata-se de um processo que precisa ser vivido. Todavia esse tempo de reclusão não pode dar espaço ao enclausuramento.


Se preciso for, nos guardemos, nos asilemos, sem, contudo, nos fecharmos para a vida.


Essa fase há que ser encarada como um processo que, como todos, tem começo, meio

e fim, e, como tal, só terá sentido se servir de caminho para um ato de libertação.


O tempo de fechamento para autoanálise e autoconhecimento não pode tirar de nós o brio, o encanto e a fruição da vida.


Sabendo-nos, passageiros, sejamos conscientes de que o tempo não para, a fim de que possamos resolver nossas questões.


Assim, temos que ir vivendo e aprendendo e aprendendo e vivendo.


Viver no infinitivo exige conjugação no tempo presente.

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