• Bruna Tavares

Nós temos um sonho… (I have a dream…)

Que é mais fácil se manter na zona de conforto e apontar o dedo para o outro, isso é inquestionável, mas compreender que é no autoconhecimento que se tem respostas, é valioso!



Num contexto em que todo mundo é vítima e só é culpado o outro, ignorar qual é o seu papel para uma mudança é renunciar ao desejo que o gênio da lâmpada concedeu. Como disse Mário de Andrade, “os curiosos terão o prazer em descobrir minhas conclusões, confrontando obra e dados. Para quem me rejeita trabalho perdido explicar o que, antes de ler, já não aceitou”.


Começar algo com inúmeras barreiras é o mesmo que estar diante de uma prisão sem grades. E isso é mais comum do que se imagina…


Quem assistiu The Crown sabe que Elizabeth, muito antes de se tornar rainha, já se sentia assim desde sua infância, ao dizer, logo nos minutos iniciais de seu primeiríssimo episódio, que as pessoas admiram quem vem de classes mais abastadas, principalmente se mora num castelo. O que elas não sabem é que, de que adianta viver num castelo se mais parece uma prisão? Tenho que comer de uma forma x, me vestir de uma forma y, com roupas desconfortáveis e sequer posso me sujar. Qual é a graça, então, de viver num castelo se não posso aproveitar o que a vida oferece em outros lugares?


Para isso, existe o sonhar.


Vivemos numa incessante batalha por um mundo melhor, mas são poucos os que partem da premissa de que é preciso mudar a si para provocar uma mudança no outro. Gandhi já dizia:

Seja a mudança que você quer ver no mundo.

Que é mais fácil se manter na zona de conforto e apontar o dedo para o outro, isso é inquestionável, mas compreender que é no autoconhecimento que se tem respostas, é valioso!


Foi aí a inspiração para, na temática do mês - sustentabilidade - batermos um papo com o Ronaldo Matos, que se autodefine como “jornalista, pesquisador e educador movido pelo desafio de desenvolver a Indústria da Comunicação do Futuro, a partir das Periferias e Favelas do Brasil”. Co-fundador e editor do coletivo de jornalismo periférico Desenrola e Não Me Enrola, no qual traz reportagens especiais sobre o contexto das periferias e favelas de São Paulo sob um olhar ao qual a sociedade ignora - um agente de transformação social e criador cultural. É também colunista no UOL Tilt.


Outra fonte valiosa de conhecimento e inspiração (para nós e para você), foi o documentário AmarElo, disponível no Netflix.


Ambos tratam da importância de se amar e de amar o outro como fomentadores de transformação. O que todos temos em comum? Ser agentes da transformação para realizar o sonho de viver num mundo melhor.


Desenrola e Não Me Enrola

Evidenciando ser um “apreciador do direito de imaginar, criar, pesquisar e refletir”, Ronaldo despertou a atenção daqueles cerca de 1.200 alunos interessados em conhecer melhor sobre Futuros, curso promovido pela Aerolito com empresas e iniciativas sociais voltadas para a promoção da mudança, ao narrar a sua história.


Ele entendeu, assim como Gandhi, que a mudança deveria partir dele. Então, sob um novo olhar do Jardim Ângela, subverteu o que antes via como um lugar que não lhe representava como uma fonte inesgotável de aprendizado, informação, cultura e beleza. E aí, percebendo que não eram apenas os centros urbanos que tinham seus encantos, como o jornalismo tradicional nos faz acreditar, decidiu ser o próprio agente de transformação da periferia, mostrando não apenas esse “novo” cenário, como também esclarecendo que é a união que faz a força. Está tudo conectado e um não funciona sem o apoio do outro.


Seu maior desafio era, e continua sendo, colocar todos na mesma página. Mostrar que é para a vizinhança que pedimos ou oferecemos uma xícara de açúcar quando o de casa acabou. Mas isso tá longe de ser tarefa fácil. Sobretudo quando a grande maioria da população tem a periferia como vilão e os centros urbanos como os bons moços. E não só para quem é de fora, mas também quem é de dentro da periferia toma isso como verdade.


Como disse Ronaldo,

Não adianta ter elucubração se não consegue falar a mesma língua de uma pessoa que não sabe nem o que está fazendo nesse lugar que entende que é o lugar que merece estar.

Assim, propõe com suas colaborações jornalísticas a construção de experiências de descoberta onde as pessoas realmente se encontram.


O desconhecimento é um veneno silencioso e invisível, que somente transformado em conhecimento possibilita que a informação seja transmitida com as reais verdades.


O não-lugar

Ronaldo destacou que um dos principais problemas do brasileiro é o seu não-lugar, por onde também passou até ressignificar sua história. Conhecer sua ancestralidade dá lugar ao resgate dos valores, permitindo um encontro consigo mesmo. É a partir daí que se compreende o sentido da frase “o uno é o todo”. Conhecendo e amando a si próprio, dá, naturalmente, potência e força para transmitir esses valores para o outro, e, assim, abre portas para reconhecer que as diferenças de cada pessoa não são o vilão, mas o herói que dá o impulso para a salvação. Somos todos vizinhos; somos todos irmãos. Não são as diferenças que nos afastam, são elas que nos conectam.


É a partir delas que surge a criação de movimentos de políticas públicas, a formação de uma rede de apoio real, e a sustentabilidade das relações e da comunidade. Uma mão leva a outra!


Começar pelo que é possível é o caminho a se seguir. Então, fica o convite para refletir sobre quem se é.


É possível mudar?

Provocado pelo questionamento do que é possível ser feito, ou melhor, qual o primeiro passo para resolver esse nó? Onde conseguimos colocar a mão para que essa história esteja pelo menos um pouco diferente? Ronaldo nos trouxe o conceito de cidades educadoras. São locais que passaram a ser assim denominados a partir da transformação local pelo aprendizado, como Barcelona.


Nelas, o agente transformador não é meramente o governo, mas a população. Nessas cidades, a escola é vista não apenas como a sala de aula, a cadeira, o professor, e sim como algo muito maior: um conjunto de indivíduos (os alunos, seus pais e professores, dentre outros, que estão lutando contra a desigualdade). O conceito de educação supera o ensino dentro da sala de aula. Ele vai às ruas para mostrar os alunos a viverem a cidade, entendendo qual a participação de um cidadão no desenvolvimento de seu entorno; o funcionamento da carga tributária e qual a relação disso com as próprias finanças, dentre várias outras medidas tornando o aluno cidadão e mostrando-lhe que ele é agente ativo na implementação de uma cultura de sociedade e, portanto, não será um único representante que fará tudo por ela, mas a união da população provocando sua transformação.


Eu sou porque nós somos

AmarElo. Como diz o próprio nome, o amor cria elos. É o que também sustenta a filosofia Ubuntu, que, numa tentativa de tradução para o português, significa “humanidade para com os outros”. Seu mais puro sentido é pautado quando da quebra de seus principais valores, respeito e solidariedade, o que prejudica não o indivíduo diretamente afetado, mas todos os seus semelhantes.


A referência trazida por Emicida em seu documentário não é à toa. Aliás, nada foi lançado na produção audiovisual, sem ter um destino muito específico e necessário de estar ali.


Parece estranho trazer ubuntu para essa matéria? Então vamos tentar traduzir para você entender. Conhece o samba? Pois é. Esse é o gênero musical que mais reflete tudo o que está sendo dito aqui. Um movimento iniciado primordialmente pela população negra e pobre do Rio de Janeiro, conhecido e reconhecido mundialmente. É uma música de todos e para todos. Afinal, quem não gosta de samba, bom sujeito não é! É ruim da cabeça ou doente do pé!


Logo, fica a provocação: "se eu não sei de onde eu vim…? eu sei pra onde vou?"



Desenrola e Não Me Enrola - https://desenrolaenaomenrola.com.br/

Campanha de assinaturas - https://www.catarse.me/desenrolaperiferias Já que falamos em samba, para não deixar o samba morrer, é possível contribuir através desse link do catarse para o jornalismo promovido por Ronaldo e os tantos outros colaboradores do Desenrola, a partir de R$ 5,00.

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