• Gabriella Albuquerque

Mãe também é gente

Atualizado: 19 de jan.



"A criança nasceu com uma fome louca. Uma fome desesperadora.

Uma fome de nove meses. Agarrou-se ao seio materno e começou a mamar. A mamar, furiosamente, a mamar

E mamava, e crescia, e mamava

E a mãe sumia, sumia… (...)"

Elegia ao Amor Materno, Ângelo Machado


A mãe nasce não só no exato segundo em que abre o exame positivo, nem mesmo nos primeiros minutos pós parto. O nascimento da mãe é duradouro, existencial e hormonal. Já o do filho, como diz o poema acima, é faminto. E talvez por isso, além daz razões biológicas, a mulher se doa ao nutrir. O alimentar não é só de leite, é de explicações (que mundo é esse, mãe?), de proteção, de afeto, de tempo e energia.

Um trecho de uma música, da cantora Maria Gadú, traduz bem essa transição: "quando já não tinha espaço, pequena fui, onde a vida me cabia apertada". Parece algo dilacerador, mas não é bem assim, ao menos não para todas. A filósofa francesa, Elisabeth Badinter, falou "sou dos que pensam que o inconsciente da mulher predomina amplamente sobre os processos hormonais". Pode-se pensar, inclusive pela ótica da psicanálise e também biológica, que o movimento de certa abertura de espaço para caber mais um no próprio corpo e vida é instintivo. Mas, é um se apequenar? Ele tira da mulher a individualidade?


Sobre não estar sozinha

"Durante a gestação a gente já tem uma pequena amostra de não estar sozinha, (...) mas a ficha só cai quando você chega em casa com aquele bebêzico e percebe que, mesmo para coisas simples e rápidas como um banho ou um xixi, por exemplo, você precisa de programação ou apoio", conta Michelle Seixas, mãe de uma criança de 1 ano e 4 meses, designer e criadora da marca, projeto pós materno, @the.mama.drama. E se a vida em casa muda, imagina os planos e a vida lá fora.


"Eu amo viagem, e tenho perfil de viagens mais roots, destinos diferentes, tipo ver aurora boreal. Planejar e sonhar com os roteiros sempre me fez bem, no entanto, a simbiose é tão grande que nem sei se quero deixar eles aqui. Pode até acontecer, deixar com minha mãe; mas, neste momento o que quero mesmo é poder levar eles junto", explica Vivian Navarro, mãe de dois filhos (2 e 4 anos) e gerente de bem estar em uma multinacional. Essa conexão tem explicação da ciência. Pesquisadoras da Universidade de Rhode Island, de um estudo sobre gestação e bem estar, descobriram a hipótese de que nascer completamente dependente dos pais não é algo ruim para os bebês, muito pelo contrário, pode ser muito bom para o desenvolvimento cognitivo e neuromotor dos pequenos. Pura sobrevivência.

A intensidade na relação mãe - filho, portanto, é a garantia da transformação de bebês em adultos inteligentes. Mas, e para a mulher? No filme e livro Comer, rezar, amar, a autora Elizabeth Gilbert começa a se questionar sobre querer ser mãe e conversa com uma amiga, com filhos, para conseguir decidir. Na cena, a então amiga responde:

"ter filho é como fazer uma tatuagem na cara. Você precisa saber se é o que você quer antes de se comprometer".

Ao escolher maternar também nasce uma nova pessoa e esta nova imagem precisa ser vista no espelho para a mulher se reencontrar dentro da persona mãe.


A mamãe precisa trabalhar

A vida profissional é, muitas vezes, a saída para manter-se indivíduo. Mas, nem sempre foi assim. Até meados dos anos 80, a mãe profissional não tinha força e nem era bem vista. “Pela primeira vez na história milenar do trabalho feminino, as mulheres escolhem voluntariamente deixar casa e filhos para trabalhar fora”, disse Badinter, em 1985. O trabalho tornou-se parte do processo identitário feminino. Diferentemente do pós-guerra, quando foi mandatório a força da mão de obra delas, após o movimento feminista, a realização profissional se tornou escolha e não só elevou a autoestima das mulheres, como a ofertou a liberdade e poder de compra.

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E tem mais. As habilidades interpessoais, tão necessárias no mercado do século 21, são fichinhas pós maternidade. "Nossos olhos se abrem para o mundo. Muitos lugares de trabalho são mais fechados e monótonos (...). Os passeios diários empurrando o carrinho podem ampliar nossa visão", explica Denise Damiani, consultora e conselheira, ex- VP de estratégia do Itautec e mãe de dois filhos, no livro Ganhar, gastar, investir, o livro do dinheiro para mulheres.


Lidar com as crianças e os imprevistos podem ser fatores estressores, mas, ao mesmo tempo, é como um treinamento para colocar os pés no chão e abrir mão da busca da perfeição. "Eu aprendi a me colocar no lugar do outro e a ser mais prática, mais minimalista. Abandonar aquela idealização de perfeição também", conta Ana Paula Machado, mãe de uma filha de 5 anos e psicóloga. Para Vivian, a maternidade a deixou mais forte e poderosa, "por ter gerenciado frustrações das próprias expectativas e pelas experiências de superação, pequenininhas, mas tão constantes".


Apesar disso, ainda não caiu a ficha do mercado e, muitas vezes, nem da autovalorização da mulher.

"Então, tirar um ano sabático no Nepal é maravilhoso, mas cuidar dos filhos não tem valor? (...) Há muita angústia e culpa desnecessárias envolvidas no processo. É preciso sensibilizar gestores e líderes para lidar com a ausência temporária da funcionária", fala Denise, colocando no trombone o quanto ainda é preciso caminhar na equidade de gênero.

Tempo para si

Com tantos nascimentos, encontros e reencontros, a solitude é o momento necessário de reabastecer a alma da mãe.

Independente dos presentes de Dia das Mães, é preciso mesmo conquistar o tempo para si. Esse momento vai variar de tamanho de acordo com a idade dos filhos, a mãe do recém nascido tem demanda e exaustão constantes, já a mãe de uma criança mais velha ou adolescentes vive outro momento. Além disso, lembrando a matéria sobre rede de apoio, uma criança se educa a partir de muitas mãos. E é importante reforçar: a fase da dependência é uma fase, exceto raras ocasiões. "Consigo esse tempo, mas não vem fácil. É uma fronteira que se precisa recorrentemente vigiar para não ser violada.", alerta Priscilla Olegario, mãe de um menino de 6 anos e publicitária.


"Sempre consegui ter tempo pra mim, sempre trabalhei (gosto de dinheiro então poder trabalhar considero tempo dedicado a mim), fiz minha faculdade só depois que ele nasceu, assim como atividade física também.", conta Bianca, mãe de um filho de 16 anos e é contadora. Para ela, filha de uma família grande, ser mãe a fez sentir mais liberdade porque junto com o pai dele, poderia conduzir a vida como quisesse.

A mãe pode até ser como ganhar uma tatuagem no rosto, mas isso não a faz apenas uma fonte de nutrição e cuidado. A mulher permanece viva para além do desenho tatuado. E ser ela mesma pode ser o maior ato de amor para com o filho e para si. "O que eu tento fazer é reconhecer a existência dessa demanda e organizar a divisão dele com outros agentes da sociedade (outros familiares, escola, profissionais remunerados, etc). No fim das contas, toda a sociedade se beneficia de uma criança bem cuidada, que se torna um cidadão ajustado, funcional, produtivo.", resume Priscilla.

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