• Gabriella Albuquerque

De dentro para fora e de fora para dentro

Atualizado: 6 de jul. de 2021

Amamos as histórias de amor romântico, que molham páginas de livros e guardanapos, mas e quando é sobre amar a si?


Foto: Matthew Ansley


Na Índia, as pessoas são divididas por castas, determinadas por classe social, e as mais baixas são os que não podem tocar, se aproximar ou mesmo olhar. Dentro deste grupo, tem os mais "aceitáveis", são os funcionários de casas, e os menos, que se tornam catadores de lixo. No livro "O momento de voar", da Melinda Gates, uma das histórias é a de crianças indianas, consideradas intocáveis, que vivem em meio ao lixão.


Estas meninas, especialmente, com a ajuda de uma ONG, começam a frequentar a escola e lá, além de terem aulas comuns, são abraçadas. Também praticam esportes e assim se descobrem excelentes lutadoras de karatê. Os responsáveis pela escola as levam então para campeonatos fora da Índia.

E assim pela primeira vez na vida elas sentiram o que era respeito de verdade.

"Os olhos delas brilhavam quando chegavam nos lugares e eram recebidas de braços abertos, com olho no olho, apertos de mãos", revela Melinda. Como a própria autora diz, junto com isso descobrem a autoestima. Essas meninas viviam no extremo da falta de amor próprio, é claro, e sofriam os inúmeros impactos de uma sociedade desigual. Mas, e nós? Com os devidos contextos, quantas vezes você realmente sentiu valor por si mesmo?


Homens e mulheres: quem se ama mais?

De acordo com um estudo da Dove, A Real Verdade Sobre Beleza: Segunda Edição, apenas 4% das mulheres no mundo se consideram bonitas e 80% concordam que toda mulher tem algo bonito em si; entretanto, elas não enxergam sua própria beleza. Já uma pesquisa da Harvard Business Review revela que o público feminino levanta a autoestima com o envelhecimento e os homens são o inverso. Até os 40 anos, elas têm menos segurança em si mesmas e aos 60 chegam no auge da autoconfiança.


Isso explica porque os homens são mais ousados no início da carreira. Segundo dados do Linkedin, rede social profissional e de empregos, os homens jovens tentam vagas de trabalho mesmo que o currículo deles não correspondam 100% às exigências. Já as mulheres, nessa fase da vida, estão em busca da perfeição. "Nossa auto exigência é dura e nos impede de experimentar coisas novas", comenta Íris Bohnet, professora da Universidade de Harvard.


As mulheres jovens não têm autoestima menor à toa, foram direcionadas a só se admirarem quando forem perfeitas perante os outros, ou seja, nunca. A autora do livro "Corajosa Sim, perfeita não", Reshma Saujani, relata: o problema é que, quando se esforça tanto para que todos gostem de você, muitas vezes você acaba não gostando muito de si próprio.


Foto: Apaha Spi

E os homens mais velhos não vivem crises porque sim. O valor do masculino está posto no sucesso, trabalho e força, tudo que passa a perder o sentido quando se envelhece.

"Acho que, no mundo ocidental, aprendemos uma forma de autoconfiança que, no fundo, não traz de fato uma confiança verdadeira. Traz um buraco emocional.", Stephen Little, pioneiro no treinamento de mindfulness no Brasil, irlandês, físico e budista ordenado, para o site Papo de homem.

Na realidade, ambos os sexos estão um tanto perdidos sobre o que amar em si e como manter a confiança.


O brilho nos olhos

Uma sociedade que valoriza apenas um padrão de beleza, um gênero, uma raça, não cria um ambiente favorável ao amor próprio. Neste ponto, se torna evidente que autoestima é bem mais do que beleza e amar o corpo. Segundo o dicionário, é a qualidade de quem se valoriza, se contenta com seu modo de ser e demonstra, consequentemente, confiança em seus atos e julgamentos. É o brilho nos olhos das meninas indianas.


"O amor é a força mais poderosa e subutilizada para a mudança do mundo. (...) é o esforço para ajudar o outro a florescer - e isso geralmente começa ao enaltecer a autoestima de uma pessoa.", Melinda Gates. A autoestima também se constrói de fora para dentro, apesar de não ser refém disto.


A resposta, portanto, é amor para dentro e para fora. Para você e para os outros, independente das características de cada um.


E como se pratica amor?

"Assim como viver sem ter amor não é viver", Tom Jobim. Haveria de ser simples amar e encerraria aqui esta matéria. Mas, se assim fosse, os dados da autoestima não seriam como são no mundo. Graças aos curiosos cientistas, o amor, a felicidade e a estima estão cada vez mais presentes nos temas de pesquisas. Por isso, é possível trazer dicas práticas, além das frases poéticas, para te ajudar.


"A nossa postura diz muito sobre nossa sensação de poder", diz a psicóloga e pesquisadora da Universidade de Harvard, Amy Cuddy. Segundo os dados coletados por Amy, se treinarmos gestos, movimentos e até a forma como sentamos, podemos ter mais confiança em nós mesmos. A expressão "cabeça erguida" não é de se jogar no lixo, portanto. Você pode prestar atenção na sua linguagem corporal, principalmente em ambientes desafiadores.


Valorizar as próprias características é uma forma óbvia de cultivar autoestima, mas nem sempre fácil porque é ir de encontro aos padrões das pessoas "belas, bem sucedidas e felizes". Uma forma prática de buscar novas referências e estourar a bolha é se entreter com conteúdos além dos perfis tradicionais no Instagram e assim descobrir outros canais que você se conecta, admira e tem muito a ver com você. Quando você encontra semelhantes, começa a se olhar sem desejar se consertar o tempo todo.


Por último, mas não menos valioso, a dica é simples: se olhar de verdade. É um desafio na vida moderna, com tanto barulho externo, mas é exatamente por isso que essa revista existe. Para você ter tempo para você e se enxergar. "As pessoas farão qualquer coisa, por mais absurda que seja, para evitar encarar suas próprias almas.", Carl Jung, psiquiatra e terapeuta.

E em seguida "aquele que olha para dentro, desperta".

Se dê uma chance e desperte-se.


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