• Gabriella Albuquerque

Tem dias que têm tanto

Atualizado: 19 de jan.


Tem dias que me sinto em uma janela observando uma avalanche se aproximar e sem saída. Tem que pedir comida, fazer feira, pedir água, lavar roupa, fazer a comida, remarcar faxina, responder nos apps de entre... tocou o interfone. Limpar banheiro, tirar lixo, limpar a casa, melhor varrer para não espirrar. Trocar lençol. Algo rasgou, algo manchou. Melhor comprar mais potinhos para cozinha.


Ainda tem a água da planta que está pela hora da morte. A bagunça da sala. A roupa no varal. A roupa na bacia para dobrar. Lavar tudo, tem o Corona. O quadril doeu. O braço já tá pedindo socorro com tanta coisa. Aí tem que ir à fisioterapia. Já é tempo de trocar as escovas de dentes. Será que devo marcar ginecologista por agora? Melhor esperar um pouco.


Tem o espelho do quarto. Estou há mais de um ano sem um espelho de corpo inteiro. Sem a rede na varanda. Sem os quadros. E sem o carrinho bar. Tem minha pele ficando com espinha. Tem a raiva entalada da falta de governo. Tem o medo do Corona. Tem o medo do Corona na nossa família. Tem a distância dos amigos. Tem a minha agenda se acumulando. Tem as obras no prédio. Os barulhos internos já não estavam suficientes. Parece que estou nadando sem sair do lugar. Aliás, deve ser isso porque não têm como fazer natação (era meta de 2020 ahaha).


Nem listei o trabalho, nem as questões familiares e mais um monte de coisas. E entendo que isso duplica para quem tem filhos. A vida tem sido assim desde março de 2020, com ciclos de bagunças e sobrecargas.


Mas, é justamente nesses dias "avalanche" que eu faço questão de levantar da cadeira, preparar meu café, abrir meu livro e sair de cena. Escolho, por livre espontânea liberdade, ter ao menos alguns minutos para mim. De forma consciente e presente, abro mão do que pode ser soterrado.


O tempo para mim, esse eu não entrego não.


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