• Bruna Tavares

Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais!

Se o objetivo é manter a troca e a relação em pé, resgatar a ideia de merecimento de tempo individual é um caminho possível. Para homens e mulheres.



Os anos passam, as coisas mudam, a vida anda, mas algumas tradições permanecem intactas.


Desde que nos reconhecemos como sociedade, constitui dever do homem prover a família e da mulher cuidar da casa e da prole.


Essa simples descrição carregada por tantos séculos - até o advento da Revolução Industrial - traz consigo o chamariz de que há algo errado. A tarefa do homem praticamente exige que ele saia do que lhe convém chamar de seio familiar e buscar alimento para si e para a subsistência de seus familiares. Já à mulher cabe a reclusão domiciliar e, note, voltada sempre para o outro, mas nunca para si.


Atualmente, mesmo que tenha havido uma ruptura na profissão notoriamente feminina “do lar”, se sustenta um nocivo elogio como forma de escancarar a permissão para o homem se evadir da capacidade de ser multitarefa, tal como se acredita que Elas sejam.


De um lado, a rotina estereotipada sempre incluindo a pelada, a cervejinha com os amigos, o churrasco, parecem estar inseridos num manual masculino, e o cosmos parece trabalhar a favor deles para que sempre tenham tempo para fazer essas coisas.


No caso das mulheres…. hmm, alguma ideia do que o cosmos reserva para Elas? Elas que lutem para dar conta do outro em detrimento de si, não é?


Qual a consequência disso?

O famigerado senso comum de que homens não choram e mulheres não riem.


Entre uma enxurrada de fotos nas redes sociais, com milhares de filtros para disfarçar a barriguinha, as olheiras, e tudo o que não agrada a influenciadora e os afazeres da vida e trabalho, a mulher, que já não tinha vez para ser perfeita, vê seu posto descer cada vez mais por alguém que sequer existe. Quem teria espaço para rir e relaxar nessa situação? O século é 21, mas a autoestima feminina segue boicotada.


Na super inteligente e também dolorosa leitura do livro “A Sucessora”, a autora Carolina Nabuco traduz perfeitamente o inconsciente de uma mulher ante o medo de perder o marido. Neste romance, a situação era ainda mais absurda, porque a ex-esposa do então marido da protagonista Marina é falecida. Contudo, o medo de nunca conseguir ser boa como a outra lhe afligia diariamente. Somente ao descobrir que sua antecessora não podia ter filhos, mas que ela, Marina, estava grávida, é que se conscientizou de que seu medo não tinha sentido.


Mas perceba a gravidade do pensamento de Marina: somente com um filho foi que seu medo de não ser amada pelo marido se esvaiu. Ou seja, ser ela própria nunca foi motivo que lhe fizesse acreditar em sua capacidade de ser quem deseja ser, nem de ser amada pelo outro.


E aí se desdobra outra reflexão necessária: as mulheres foram feitas para servir ao gosto e prazeres do outro; nunca aos seus. Com isso, tanta necessidade de ser aceita e amada pelo outro, ainda que isso implique em sua infelicidade. Por isso, também, a autoestima ser um valor deixado de lado e, pior, tão difícil de ser recuperado.


Dificilmente encontram-se homens com esses dilemas. Entretanto, é preciso levar em conta que a condição masculina arraigada ao longo da humanidade também lhes trouxe tensos desafios.


O dever de ser macho acima de tudo lhes extrai o que lhes faz humanos: o sentimento e a emoção. Naquilo que seria sua rede de apoio, o momento com amigos serve para justamente o contrário, fazer de conta que sentimento e emoção é coisa de mulher, e o que vale é ver e falar de mulher, ainda que esteja num relacionamento. Quem não faz isso é gay, dizem se houver recusa.


Para a terapeuta Lori Gottlieb:

“Assim como minhas pacientes, os homens lutam com seu casamento, sua autoestima, sua identidade, seu sucesso, seus pais, sua infância, sua necessidade de ser amado e compreendido, e, no entanto, pode ser complicado abordar esses tópicos com seus amigos homens de uma maneira significativa. Não é de se estranhar que as taxas de abuso de substâncias e de suicídio em homens maduros continuem a aumentar. Muitos deles não sentem ter nenhum outro lugar a que recorrer.”

Até na forma de tratar dos infortúnios da vida os homens parecem achar uma forma mais fácil de criar seus sambas. Já dizia Benito di Paula:


Vou vivendo essa vida do jeito que ela me levar / Vamos falar de mulher, da morena e dinheiro / Do batuque do surdo e até do pandeiro / Mas não fale da vida, que você não sabe o que eu já passei [...].

Talvez por isso, isto é, por essa repulsa a expor seus medos e angústias, os homens são os principais opressores, a ponto de (pasmem!) assediarem até assistentes virtuais.


E porque esse assunto faz parte do tema desse mês?


Porque “culturalmente, os homens têm maior privilégio em relação ao tempo; em como o seu tempo é usado de acordo com seu desejo. O que não significa dizer que é utilizado de forma consciente. Automaticamente, acabam optando por atividades para extravasar. E isso diz muito sobre o peso que carregam. Acabam achando que têm mais direitos, enquanto as mulheres sentem mais culpa em investir mais tempo em si mesmas.”, segundo o psicoterapeuta Lula de Oliveira.

A busca por terapia - complementa - é predominantemente feminina. Os homens tendem a procurar terapia como último recurso após receberem um ultimato da(o) companheira(o) diante da insatisfação com o relacionamento, ou em situações mais graves, em que apresentam sinais de pânico, transtornos de ansiedade, etc.


É como se os homens fossem mais “autorizados” a terem tempo. Tempo para o futebol, para a cerveja, para o jogo na televisão… A mulher, de outro lado, parece usar seu tempo de maneira mais consciente, sendo raríssimas as situações em que apenas o utilizam para extravasar.


E qual o impacto de tudo isso nos relacionamentos?

Sabe aquela velha citação que diz que primeiro você precisa se amar para que os outros possam lhe amar? Vale pensar no desafio que tem sido estar bem consigo nessa situação de isolamento físico de outras pessoas e de todo o entorno.


Afinal, quando você não está bem, é fácil tratar o outro bem? Ainda mais aquele que tem nos acompanhado nessa jornada pandêmica? Tem momentos em que é quase impossível não tratar o parceiro de maneira indesejada, não é mesmo? Afinal, o outro também está sofrendo com tudo isso, e, mais hora menos hora, o autocontrole pifa. Vem o arrependimento, a culpa, e, claro, a ansiedade. Um looping infinito.


Instaurou-se um paradoxo com a pandemia. De um lado, é possível estar mais próximo de quem se ama. De outro lado, todas as obrigações e compromissos se concentram num só espaço. No fim, segue não havendo tempo de aproveitar quem está ao lado, sob o mesmo teto. Cada um vai sobrevivendo como dá.


Se o objetivo é manter a troca e a relação em pé, resgatar a ideia de merecimento de tempo individual é um caminho possível. Para homens e mulheres. Importante lembrar que para alcançar resultados diferentes, é preciso agir de forma diferente. Sem uma divisão de tarefas justa e respeitosa, é difícil caminhar juntos por muito tempo.


No reencontro, o notório “Prometo estar contigo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, amando-te, respeitando-te e sendo-te fiel em todos os dias de minha vida, até que a morte nos separe”, ainda que não se tenha proferido as palavras antes de juntar as escovas de dentes, encontra o seu sentido mais íntimo.

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