• Gabriella Albuquerque

És tudo enfim que tem de belo

Atualizado: 19 de jan.

Quem é a pessoa mais bonita do mundo para você?


Existe um conceito de autoestima, nas profundezas de cada ser, que está bem longe do clichê "se ame como você é". Não é que as pessoas não queiram se amar, é que para isso acontecer elas desejam realmente se sentirem bonitas. É aí que começa o conflito. A beleza está em todo indivíduo de forma única, mas os olhos foram treinados para buscar padrões estéticos. É como querer que um aluno da aula de matemática consiga fazer uma prova de geografia quando sequer teve contato com esta matéria.


As referências culturais e sociais no Brasil em relação à beleza são sobre tamanho de corpos, pele não envelhecida e cabelos jamais brancos. A antropóloga Miriam Goldenberg, autora do livro O corpo como capital, relata essa característica no feminino:

"as brasileiras conquistaram um poder inegável na nossa cultura. Mas, o discurso ainda é sobre a decadência do corpo, falta de homens, imperfeições. É uma extrema preocupação com o envelhecimento".

De acordo com o Ranking Mundial de Consumo de HPPC da Abihpec/Euromonitor, o Brasil é o quarto maior mercado de beleza e cuidados pessoais do mundo, ficando atrás apenas para os Estados Unidos, China e Japão. Além disso, como relatado na matéria, aqui no site, sobre tamanho de corpos, o país tem um índice altíssimo de cirurgias plásticas realizadas por dia.


Apesar das mulheres serem a maior força motriz deste nicho, investindo de academia a salão de beleza, os homens estão cada vez mais procurando procedimentos estéticos. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, a busca por cirurgia plástica no gênero masculino subiu de 5% para 30% nos últimos 5 anos. Segundo os dados, a maioria é motivada pelo mercado de trabalho que tem valorizado a experiência sim, mas junto a isso uma "aparência de vigor" e uma imagem lapidada.

Não há dúvidas de que o país valoriza, e muito, os corpos. Miriam compara as brasileiras com as alemãs para explicar a diferença. "Lá, aos 60, as mulheres estão falando de conquistas, trabalhos, viagens, vida cultural." Por aqui, o tema é o que fazer para perder peso. Esta conversa não começa na mesa das amigas e amigos reunidos. Se inicia nas novelas, nas revistas, nos desfiles, nas imagens em publicidade, nos profissionais mais valorizados. A referência em todos esses setores é um único padrão.


O baú de referências e o medo da velhice

Uma pesquisa e campanha realizada pela Pfizer (sim, a mesma das vacinas), chamada Envelhecer sem vergonha, sobre a relação dos brasileiros com o envelhecimento, mostrou que 92% dos brasileiros têm medo de envelhecer. A imagem padrão da beleza ainda é de pessoas jovens. Mas, o mundo não é mais tão jovem assim. Segundo o IBGE, em 2019, o número de idosos, pessoas acima de 60 anos, no Brasil era de 32,9 milhões e a expectativa de vida média era de 76 anos. Ou seja, tem um mundo de pessoas sem representação midiática ou ocupando papéis de "meros vovôs".

"Gostaria que o meu eu mais jovem pudesse ter conjurado o que estou vendo agora: mulheres com mais de 50 anos alcançando sucesso, experiência e sabedoria. Para elas envelhecer significa ficar mais sábias e mais ousadas", disse a jornalista Mika Brzezinsk, autora do livro Know your value e assessora da Forbes na lista das mulheres mais influentes do mundo. Segundo uma pesquisa da Playtex, uma marca de preservativos inglesa, as mulheres aos 50 anos de hoje nunca se sentiram tão felizes, cheias de vida e aventureiras.


Aqui no Brasil, uma referência do assunto é o perfil no Instagram Viva a coroa (@vivaacoroa), criado pela jornalista e colunista Adri Coelho Silva, e descrito como: Coroa, signo de poder, mulher que não é, nem quer ser, uma menininha. Por lá, relatos dela mesma e inúmeras referências sobre envelhecimento, beleza e bem estar.

Adri, colunista da Vogue, 50+


O que precisa ser questionado é sobre o que cada um carrega no baú de referências de imagens. Se nesta seleção só tem pessoas com características específicas, você está sendo impactado (a) com isso, principalmente se você não tem as tais diretrizes. Quem são as pessoas que você enxerga como bonitas? Essa resposta é valiosa.


"Para mim, além do autoconhecimento, essa é uma das chaves para atravessar as inquietudes relacionadas à beleza: o ato de nos cercarmos de referências que nos agradam e nos aproximam de quem somos e de quem gostaríamos de ser é poderoso.", Isabella Marinelli, editora de beleza da revista Claudia, em sua coluna. O caminho é diversificar as belezas que você enxerga.


A imagem importa, mas não é prisão

"Imagem é a primeira impressão que as pessoas têm da gente. É o que faz elas se abrirem mais ou não para nos ouvir, antes da gente falar, é a imagem que fala", explica a consultora de imagem Alissa Ferreira. Ou seja, a reflexão sobre referência e beleza não é um indutor para deixar o autocuidado de lado.


É importante olhar para si mesmo com carinho e desenvolver a autoestima. "Não é se conformar, é buscar a evolução e esse é o maior legado para as clientes. Só não deve ser cansativo.", conta Alissa. Quando uma pessoa busca esse desenvolvimento, ela acredita em si, afinal é um investimento, inclusive de tempo. A busca pelo autocuidado é saudável desde que não se torne uma guerra travada consigo mesmo em busca da perfeição.

O ex-presidente americano, Barack Obama, é um dos cases de imagem profissional durante a campanha e mandatos. Através da imagem transmitia confiança e elegância. O mesmo para Michelle, sua esposa.


Segundo Daniel Goleman, psicólogo americano especialista em inteligência emocional e liderança, uma das competências interpessoais necessárias para o crescimento na carreira é a autoconfiança e uma pessoa com baixa autoestima dificilmente a desenvolve. "Confiar em si mesmo não é sobre ser perfeito, é sobre saber seus pontos fortes e frágeis, reconhecer o que pode melhorar e valorizar os demais. O perfeccionismo é o oposto disso e é uma das maiores causas de problemas nos negócios e seus líderes", ressalta Goleman.


A beleza está nos olhos de quem?

"Todos nós nascemos tão bonitos, a grande tragédia é que nos convencem de que não somos", Rupi Kaur, poeta, nascida em Punjab (entre Índia e Paquistão), e autora de livros como Meu corpo, minha casa. Além de padrões, definiu-se, no senso comum, que beleza é sobre o que os outros veem e isso resulta em ofertar poder a outra pessoa sobre sua própria beleza.

Existe inclusive o ditado "a beleza está nos olhos de quem vê", mas será que é isso mesmo?
gif

Há quem carregue uma confiança em si mesmo tão potente que não tem quem duvide da beleza deste indivíduo. A expressão It girl, cunhada nos anos 30, é uma das que explicam a capacidade humana de causar admiração independente de um padrão. "Não é a beleza, por assim dizer, nem uma boa conversa, necessariamente. É uma atração. É só 'it', explicou a dona do termo, Elinor Glyn. É uma pessoa que brilha através do poder dado a si mesma.


Na luta para reconhecer a própria beleza, parece que ela está mesmo é nos olhos de cada um ao se olhar no espelho. "Para mim a pessoa bem resolvida é a que entendeu que cada indivíduo é único e ela deve valorizar e maximizar a própria potência", relata Alissa.

Como disse Rupi, todos nós nascemos bonitos e passamos pelo convencimento de que não, mas acreditamos que é possível reverter a tragédia e mudar o roteiro dos contos de fadas (como já tem acontecido). Que tal ao invés do clássico "espelho, espelho meu, tem alguém mais bela do que eu?", você usar "espelho, espelho meu, não há ninguém bela COMO eu!"?


17 visualizações

Posts recentes

Ver tudo